"Com o fim do comboio regional de passageiros no Ramal de Cáceres, anunciado para daqui a poucos dias, encerra também o melhor capítulo da vida de muita gente. Vou, a título de mero exemplo, cingir-me ao que a mim diz respeito porque nasci a ouvir o silvo agudo e rouco daquelas então velhas máquinas negras fumarentas de grandes rodas e manivelas gigantescas movidas a vapor, que, ao chegarem muitas vezes à estação, enchiam o ar de um nevoeiro quente e húmido que se estendia por toda a parte baixa da aldeia, quando tinham que descarregar o excesso de pressão que acumulavam no percurso.

A minha casa fica num alto sobranceiro à Estação, a qual posso ver das janelas das traseiras ou do quintal, de dia ou de noite, porquanto, os holofotes que iluminam todo o seu perímetro rasgam a escuridão e reflectem a sua poderosa luminosidade por toda a colina, até ao depósito abastecedor de água da povoação, além bem no alto. Mas não só. Toda a minha vida é um mar de boas recordações. Mal sai da estação de Valência de Alcântara no país vizinho, poucos quilómetros percorridos, assoma a via férrea ao alto do Sesmo e logo o potente rugido das máquinas se anuncia ao longe, fazendo-se ouvir no meu quarto, desde que me lembro de ser gente.

Do outro lado da nossa casa, a oriente, onde se situa o quarto que sempre foi dos meus pais, era comum ouvi-los comentar:
- Hum… Vai haver mudança de tempo. Esta noite os comboios ouviam-se logo assim que chegavam à curva da Atalaia!Também a casa dos meus avós maternos se situava junto à passagem de nível da Cavalinha, nas traseiras da Caseta dos Assentadores cujas esposas eram as guardas que tinham por missão fechar e abrir as cancelas para passagem segura das inúmeras composições de mercadorias ou de passageiros que circulavam dia e noite.

Menino de tenra idade, entregava-me a minha mãe algumas vezes ao cuidado do meu avô Zé Lourenço, para ela poder ir com a minha avó Amélia sachar milho, ou outros trabalhos à jorna, próprios das mulheres do campo desse tempo. E lá andava eu todo o dia com ele, por aquelas tapadas de um e do outro lado da linha a ver os comboios passar enquanto o avô guardava as ovelhas, a saltar de pedra em pedra, a ouvir “as meninas a cantar” que ele dizia ser aquele zumbido cacofónico que se percebia ao encostar o ouvido aos postes dos fios telefónicos existentes ao longo da linha férrea.

E depois…

Bem… Depois, a ida a Évora por comboio quando aos 17 anos de idade e por me ter oferecido voluntário para a tropa, fui chamado à inspecção militar ao hoje extinto RI16 na Cidade-museu, numa viagem de várias horas e outros tantos transbordos, o primeiro dos quais na Torre das Vargens para a estação de Portalegre e ali de novo para Estremoz e Évora. Foi uma aventura e tanto. Depois, ao longo de muitas décadas, as confortáveis viagens com o comboio sempre aqui à porta, a levar-me na ida ou a trazer-me na volta. Elvas como recruta, Lisboa como especialista, Estremoz novamente já mobilizado para Angola, Santa Margarida a aguardar embarque para a guerra, e, finalmente, para me devolver à Beirã e à minha gente são e salvo 37 longos meses depois.

Consequência de muitas injustiças de que fui alvo, foi o comboio que me levou em 1975 para a Beira Baixa, via Abrantes, Castelo Branco e Fundão, com destino às Minas da Panasqueira. Aqui tive sempre o mesmo transporte seguro e pronto quase à porta. Para qualquer parte do país e pelo Ramal de Cáceres que sempre dispôs de excelentes acessos para muitos e diversificados destinos, bastando para isso aceder à Torre das Vargens, a Abrantes, ao Entroncamento ou a Lisboa. De manhã à noite, eram várias as opções de escolha nos horários de partida ou de chegada e dias havia que a partir da estação de Castelo de Vide já não havia lugares sentados vagos, pelo que se tinha que viajar de pé nas coxias e corredores das carruagens.

Mais tarde, quando, em função das minhas pretensões de ascender na carreira profissional, uma vez mais durante três longos e consecutivos anos, viajei no comboio para a capital onde frequentei os respectivos cursos de promoção no Alto da Ajuda, rumando depois a São João da Madeira e ao Porto como estagiário, sempre com a excelente comodidade de poder viajar de comboio todas as semanas, para onde quer que necessitava deslocar-me. E como eu, milhares de passageiros de toda esta região. É inacreditável que hoje, passadas pouco mais de duas décadas, isto esteja a acontecer. Suprimir o serviço regional de passageiros no Ramal de Cáceres é, por outras palavras, encerrar este serviço público definitivamente. Não tenhamos ilusões.

Restará, daqui nem diante, o Lusitânia Comboio-Hotel que utilizará este percurso duas vezes ao dia – ou à noite – entre Lisboa e Madrid e vice-versa. Até quando?

Todos nós sabemos. Mal se inaugure o tão badalado TGV, o Lusitânia deixará de ser necessário. E o Ramal de Cáceres encher-se-á de silvas e mato em todo o seu percurso, as suas lindíssimas Estações definharão até cairem e a memória de um povo que esteve ligado a tudo isto durante quase um século e meio, desaparecerá inexoravelmente na bruma do tempo. É verdade que neste momento talvez não seja rentável. Mas porquê? Serão os serviços oferecidos pela CP eficientes? E se, em vez de suprimirem este serviço regional de passageiros para suprimirem eventuais prejuízos, porque não suprimem antes um ou dois lugares na Administração da CP, mais os seus chorudos ordenadões, mais os carros topo de gama com motorista e um nunca mais acabar de mordomias que, isso sim, é o que verdadeiramente causa prejuízos às empresas?

Vendo as coisas por outro prisma ainda, não pagam as populações desta esquecida zona do nosso país os seus impostos como todos os outros? Então, porque têm que os Marvanenses, os Castelovidenses, os Cratenses ou os Nisenses, contribuir com as suas divisas para pagarem auto-estradas que não atravessam os seus concelhos, pontes sobre Tejo, Douro ou Guadiana que pouco ou nada usam, e muitas outras merdas megalómanas que servem só para quem lá vive perto, mas não há a porra de uns míseros euros para manter o catano de uma automotora que sirva nem que seja só a minha vizinha Júlia que tem a sua filha e os seus netos no Entrocamento, é viúva, já entradota na idade e não tem outra forma de se deslocar?
Ou será que...
Os habitantes destes municípios NÃO SÃO PORTUGUESES como aqueles do litoral ou das grandes metrópoles onde se faz tudo e mais alguma coisa nem que para isso os governos tenham que se endividar até aos olhos?

Ou ainda que...
Nós por cá só somos cidadãos como os outros, quando é preciso encher-lhes o cu de votos? "
publicado por DELFOS às 06:16