"Tenho vários créditos que não consigo pagar que rondam os 30.000 euros e tenho também crédito à habitação (…). Tenho um rendimento de 600 euros, a esposa desempregada sem vencimento e dois filhos menores. Não sei o que fazer. Ontem entrou no meu emprego a primeira penhora de vencimento e estou desesperado".

Quando recebi este texto, enviado por um espectador de "A Cor do Dinheiro", a primeira reacção foi questionar-me sobre o valor da dívida: como é que alguém que ganha 600 euros contraiu créditos (pessoais) de 30 mil euros? Mas depois de falar com um banco percebi que a tragédia é real: os bancos não dispunham, até há pouco, de informação actualizada sobre quanto (e a quem já devia) o cliente que pedia crédito. Houve casos de devedores que pediam dinheiro a A, depois recorriam a B e finalmente a C.
A falta de informação actualizada justifica tudo? Não. Os bancos falharam, redondamente, na avaliação de risco: quem ganha 600 euros não pode ter crédito. Ponto final. Onde é que tudo isto vai terminar? Num grande sarilho para os bancos. Porque o devedor, insolvente, vai recorrer aos tribunais e qualquer juiz de bom senso atribuir-lhe-á um "mínimo de sobrevivência". E ao fim de cinco anos, se se portar bem, o juiz exonera-lhe o "passivo restante". É claro que até lá a banca vai fazer de conta (nas suas contas) que vai recuperar o crédito. Na esperança de, nesses cinco anos, provisionar os incobráveis. Talvez isso explique o nível de alguns spreads e do preçário de alguns serviços bancários. E ainda há quem conteste que o crédito barato é o pior inimigo da economia…
publicado por DELFOS às 10:48