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24
Jan11

A NOITE DE 23/1/11 EM PORTUGAL

DELFOS
Não entrando pelos comentários do Prof. Marcelo em que afirma que Aníbal Cavaco Silva, ganhou, porque os outros adversários eram fracos e porque na tradição em Portugal a regra é que um Presidente da República seja eleito quando concorre a um segundo mandato, a opinião do blog, nunca uma campanha eleitoral foi tão suja.
Pensa que todo o cidadão o direito de expressar as suas ideias o tem - mas neste caso - um tempo já assim muita passado, Alegre vir assim falar de acções e um banco privado, não faz sentido nos tempos que correm.
O blog pensa que Alegre o direito o tinha na altura, mas que passado assim algum tempo não faz muita sentido.
Se o não fez, a democrática em Portugal concede títulos, em que um presidente da república não se lhe pode tocar mesmo que tenha cometido algum crime.
O blog pensa que o Alegre, o candidato apoiado pelo bloco e o partido do Governo, entrou na campanha e foi para ela a fazer chantagem emocional e politica e não  trouxe nada de novo.
O seu comportamento apenas serviu para afastar as pessoas e foi o caso do blog, que gostando de ouvir estas secas, depois de olhar, os mandou ir dar uma volta.
Estes comportamentos, este comportamento, alguém que se diz de esquerda, "a mim ninguém me cala" apenas serve para afastar os cidadões de uma mesa de voto e torna a política uma coisa muita banal e sem interesse.
O blog vos deixa, especialmente para o pessoal do mundo, de outros países e outras paragens, dois apontamentos jornalísticos da imprensa escrita em Portugal e o resultado das eleições no concelho de Gavião editado pelo administrador do blog http://p-m.blogs.sapo.pt/



O pior nível de abstenção numas eleições presidenciais foi registado em 2001, na altura da reeleição de Jorge Sampaio, com 50,29% dos eleitores portugueses a obtarem por não ir às urnas. A releeição de Cavaco Silva conseguiu bater este recorde. Com apenas uma freguesia por apurar, os números da abstenção ultrapassam os 53%. A este recorde, a reeleição de Cavaco Silva como Presidente da República junta ainda um máximo histórico de votos em branco, com um total de 190 mil. http://aeiou.expresso.pt/maior-abstencao-de-sempre-nas-presidenciais=f627695

Os 2 milhões e 230 mil portugueses que votaram em Cavaco Silva e lhe garantiram uma vitória à primeira volta representam, também, o menor número de votos expresso com que um Presidente da República foi eleito em Portugal.
Até agora Jorge Sampaio, com 2,4 milhões de votos na sua reeleição, tinha o recorde desta categoria.
A vitória de Aníbal Cavaco Silva também representa uma quebra significativa em relação aos dados obtidos na sua primeira eleição presidencial.
Em 2006, Cavaco reuniu a preferência de mais de 2 milhões e 773 mil portugueses, mais meio milhão de votos do que os obtidos até agora, altura em que apenas faltam apurar os votos de uma freguesia do Continente e os votos da emigração.  

Seis notas sobre a noite eleitoral e as primeiras projecções: 
1. Cavaco Silva vai ser, como tudo apontava, reeleito para novo mandato em Belém. nunca um chefe do Estado falhou a reeleição e Cavaco mantém a tradição. A sua votação fica aquém do que se chegou a pensar e se não atingir os 55% fica abaixo da reeleição de Sampaio (o PR com menos votos reeleito). De qualquer forma, uma vitória para Cavaco.
2. Manuel Alegre obtém um resultado fraco e é um dos derrotados da noite, se se confirmarem as previsões. Não passa da votação que obteve em 2006 (ou passa por pouco), quando concorreu sem o apoio de qualquer partido.
3. Fernando Nobre é um dos vencedores da noite. Fez uma campanha em crescendo. As sondagens na última semana davam-lhe um resultado em torno dos 10% e agora parece ficar claramente acima disso. Estes votos ainda vão valer para o futuro. O movimento em torno de Fernando Nobre vai seguramente querer capitalizar o score de um candidato que parece ter colhido muitas simpatias em quem está cansado com o actual sistema político e partidário.
4. José Manuel Coelho foi a surpresa da campanha, só tendo sido confirmado como candidato mesmo no final do prazo para apresentação de candidaturas. Tem um resultado elevado. O seu discurso cru contra a corrupção parece ter colhido muitas simpatias.
5. Francisco Lopes obtém um resultado em linha do que é hoje o núcelo duro do eleitorado comunista. Não é extraordinário, mas cumpre.
6. A abstenção pode ser um recorde em eleições presidenciais. Não é uma boa notícia. Como não é uma boa notícia a dificuldade que muitos eleitores hoje tiveram para conseguir exercer o seu dever cívico. A falha do sistema informático é inadmissível.

As eleições de hoje em Portugal foram notícia nos sites de alguns dos principais jornais, revistas e agências do mundo.
"El Mundo": "Eleições marcadas por uma grande abstenção. Cavaco Silva é re-eleito Presidente de Portugal sem necessidade de segunda volta. O Chefe de Estado renova o seu mandato depois de obter 53% dos votos, precisamente a mesma percentagem de abstenção".
"El País": "Cavaco ganha na primeira volta das eleições presidenciais portuguesas. O Presidente é eleito para  um novo mandato com 53,1% dos votos. A preocupação com a crise económica e a abstenção, que alcança um recorde histórico com 53%, afastam o socialista Manuel Alegre".
"The Washington Post": "Crise financeira do país pesa nas eleições presidenciais portuguesas deste domingo, com sondagens indicando uma clara vitória dos conservadores após o Governo socialista ter perdido popularidade com a adoção de medidas de austeridade".
"Le Monde": "Em Portugal, a extensão da vitória à primeira volta é a única coisa que está em jogo nas presidenciais".
"Folha de São Paulo": "Boca de urna aponta para vitória de Cavaco Silva em Portugal. O presidente português, Aníbal Cavaco Silva, deve ser reeleito neste domingo, com lusitanos nas urnas em uma votação ofuscada pela crise na zona do euro. Pesquisas de opinião mostram que Cavaco Silva, do Partido Social Democrata, tem 60% das intenções de votos, contra 20% de seu adversário mais próximo, o socialista Manuel Alegre".
"Jornal do Brasil": "Portugal escolhe Presidente em plena crise; Cavaco é favorito. O Presidente conservador Aníbal Cavaco Silva é o favorito para o primeiro turno, neste domingo, da eleição presidencial de Portugal, após uma campanha monótona e sem suspense, apesar da crise económica, em consequência dos limitados poderes do chefe de Estado.Os portugueses, preocupados com o crescente desemprego e a pobreza, assim como com os três planos austeridade adotados em um ano, demonstram pouco interesse por uma votação que tem como única incógnita, segundoos analistas, o nível de abstenção, que pode estabelecer um recorde."
"Veja": "Com a crise econômica como pano de fundo, portugueses devem decidir entre a continuidade que oferece Aníbal Cavaco Silva e a mudança proposta pelos demais candidatos. A escolha do próximo chefe de Estado é crucial para o país, que pode ser o próximo a recorrer à ajuda externa, depois da Grécia e da Irlanda".
BBC Brasil: "Pesquisas de boca de urna em Portugal indicam que o Presidente Aníbal Cavaco Silva conseguiu se reeleger no primeiro turno das eleições, realizado neste domingo.Três institutos de pesquisa sugerem que Cavaco Silva teria alcançado entre 52 e 58% dos votos válidos. Alguns fatores estão sendo apontados como responsáveis pela grande abstenção, como o desinteresse do cidadão comum pela política, a onda de frio pela qual passa Lisboa - a temperatura de quatro graus foi a menor em anos -, e uma certa confusão burocrática, com muitos eleitores sem saber onde teriam que votar".
"Últimas Notícias"(Venezuela): "O presidente português, Aníbal Cavaco Silva foi reeleito este domingo na primeira volta, com entre 51,6% e 58% dos votos, à frente do socialista Manuel Alegre, que obteve de 17,1% a 21% dos votos. A taxa de abstenção situou-se entre 47% e 54% dos eleitores inscritos, segundo as previsões da televisão pública e do canal privado SIC. Durante a campanha, Cavaco Silva, um economista conservador de 71 anos que foi primeiro-ministro durante 10 anos (1985-1995),  converteu a sua experiência no principal argumento face à preocupação que suscita a crise financeira".
http://aeiou.expresso.pt/jornais-estrangeiros-crise-abstencao-e-vitoria-de-cavaco=f627629

O porta-voz da Comissão nacional de Eleições (CNE) disse hoje que a confusão instalada em mesas de voto por todo o país e o bloqueio do Portal do Cidadão e do serviço SMS 3838 vai "aumentar com certeza a abstenção" nas presidenciais. Recorde-se que o mais alto valor de abstenção nas presidenciais foi alcançadao em 2001, com 50% dos eleitores a não irem às urnas.
Confrontado pela agência Lusa sobre se esta situação iria aumentar a abstenção, o porta-voz da CNE, Nuno Godinho de Matos, disse que "é claro que vai aumentar, ninguém pode dizer quanto é que vai aumentar de forma científica, mas claro que aumenta".
"Ainda por cima [os problemas] têm um efeito de descontentamento genérico, as pessoas ficam revoltadas e zangadas, dizem que é tudo a mesma choldra, isto não presta, nada funciona", lamentou Godinho de Matos.
Questionado sobre de que maneira se estaria a tentar resolver a situação, para que as pessoas que não conseguem votar o possam fazer, o porta-voz da CNE lembrou que soluções como alargar o horário de encerramento das urnas "não são permitidas por lei".
Godinho de Matos disse que quando "agora se tenta aceder aos dados do Ministério da Administração Interna - através do SMS 3838, portal do cidadão ou a Junta -, para saber o número de eleitor, para saber qual é a mesa de voto, o que lhe dizem é eleitor não inscrito".
"Como o sistema não aguenta, a procura que está a decorrer bloqueia", afirmou, acrescentando que "neste momento em rigor é isto que se está a passar, o sistema não está a debitar informação".

Filas de eleitores em todo o país

No Liceu Camões, em Lisboa, cerca de 50 pessoas aguardaram pelo menos meia hora, de cartão de cidadão em punho, para conhecer o novo número de eleitor. Mas depois de se dirigirem às mesas de voto correspondentes ao número de recenseamento das eleições anteriores (as autárquicas de 2009), os eleitores não viam o seu nome e número de identidade coincidirem e eram, assim, encaminhados para um posto de atendimento da Junta de Freguesia, contou João Malha à Lusa. 

"Estava uma fila enorme, estive ali cerca de meia hora à espera. Ainda por cima o sistema estava em baixo, o que fez com que apenas uma senhora fosse consultando, eleitor a eleitor, um caderno eleitoral", descreveu.
João Malha viu ainda "várias pessoas desistirem de votar, porque não estiveram para esperar". Na Escola Básica das Laranjeiras, igualmente em Lisboa, a situação repetiu-se.
Ana Aleixo descreveu à Lusa que depois de ter aguardado na fila da mesa de voto correspondente ao seu número de eleitor habitual, foi-lhe dito que o número não coincidia e que teria de aguardar numa nova fila para conhecer o novo número. 
"Tal como aconteceu comigo, estava a acontecer a muita gente que tinha cartão de cidadão. Tinham de se dirigir a um posto de atendimento para conhecer o novo número", disse. Ana Aleixo já tinha votado nas eleições anteriores com o cartão de cidadão e não tinha tido este problema. 
"Está um alvoroço, uma grande confusão, as pessoas estão perdidas, principalmente as mais velhas, e ninguém ajuda a orientação", disse Ana Aleixo. 

Portal do cidadão e SMS 3838 em baixo

Já em Oeiras, disse à Lusa um membro de uma mesa de voto, também há filas. A situação agrava-se no concelho, porque os membros da mesa de voto dirigem os eleitores para o portal do cidadão ou a acederem ao serviço de SMS, sistemas que estão em baixa.  
Na Junta de Freguesia de Benfica, Lisboa, os membros da mesa de voto adotam o mesmo comportamento. Luís Ferreira contou à Lusa que por ter recorrido ao serviço de SMS 3838 e não ter obtido resposta, se dirigiu à Junta a fim de obter o novo número de eleitor e votar.  
"As filas eram enormes e no local não conseguem ajudar as pessoas, porque a maneira de obter os números é acedendo ao site", disse. 
Já Ana Cunha recebeu por SMS o número de eleitor e freguesia onde deveria votar, já que mudou de residência há seis meses, mas quando chegou à Escola Secundária de Miraflores, em Algés, foi-lhe dito que não constava dos cadernos eleitorais. "Voltei a enviar mensagem e não recebi resposta. Tentei aceder ao portal e está sempre em baixo. As filas estão enormes", disse. 
Na margem sul do Tejo, em Almada, houve eleitores a quem só mudaram de número de recenseamento e viram ainda a sua secção de voto alterada, sendo obrigados a dirigirem-se a outro local de voto, comprovou a Lusa no local.  
Um eleitor, que nas autárquicas tinha votado com cartão de cidadão na Escola da Charneca da Caparica, foi informado, naquela escola, que além do novo número, tinha de se dirigir à Escola Básica Integrada da Caparica.
Em Setúbal, Viana do Castelo, Odivelas e Porto há também relatos dados à Lusa de situações semelhantes. 

A confusão gerada ontem por milhares de portadores de Cartão do Cidadão não conhecerem o seu número de eleitor teve origem na contenção orçamental. A Comissão Nacional de Eleições (CNE), através do seu porta-voz, Nuno Godinho Matos, disse ao CM que não foram enviadas cartas aos portadores de Cartão do Cidadão a informar o número de eleitor, tal como aconteceu nas Legislativas de 2009.
"Em 2009 havia um milhão de pessoas com Cartão do Cidadão e todas receberam cartas a informar o número de eleitor. Agora, há cinco milhões com Cartão do Cidadão e no actual contexto de contenção seria complicado enviar cartas para todos, custaria 1,5 milhões de euros a 30 cêntimos a carta", afirmou, considerando que os eleitores também foram responsáveis porque não se informaram a tempo.
O Ministério da Administração Interna lamentou a confusão instalada em mesas de votos de todo o País - que gerou longas filas para votar -, adiantando que vai instaurar um inquérito para apurar responsabilidades. E o PSD já chamou o ministro Rui Pereira ao Parlamento.
A contenção foi criticada ao CM por Manuel do Cabo, presidente da maior freguesia do País, Mem Martins, com cerca de 50 mil eleitores: "Lamento que um acto tão nobre não tivesse merecido uma despesa em anúncios".
A Base de Dados de Recenseamento Eleitoral não suportou o elevado número de acessos para tentar saber o número de eleitor e bloqueou durante duas horas.
Segundo o Ministério da Administração Interna, entre as 14h00 e as 16h30 houve picos contínuos de acesso na ordem dos 22 mil por segundo. Essa sobrecarga no pedido de informação levou a que centenas de pessoas de Mem Martins e de Camarate, Loures, não pudessem votar, dizem os presidentes das respectivas juntas de freguesia, Manuel do Cabo e Arlindo Cardoso.
Já a Direcção-Geral da Administração Interna rejeita esta hipótese. "Ao meio-dia já tínhamos uma afluência menor do que nas Presidenciais de 2006 e não havia nenhum problema técnico", disse o director-geral Paulo Machado, assumindo os "problemas técnicos": "Tínhamos estimado um afluxo grande mas foi maior do que esperávamos".

Estabilidade, crise económica e abstenção são os principais pontos destacados pela imprensa internacional e económica sobre as eleições presidenciais portuguesas, que ontem deram a vitória ao recandidato Cavaco Silva.
ESPANHA: “APATIA”, “ESTABILIDADE” E “ABSTENÇÃO”
O jornal conservador ‘La Razon’ escreve que “A apatia lusa outorga a Cavaco a reeleição” e acrescenta que “o candidato arrasa numas presidenciais marcadas por uma abstenção de 53 por cento”.
O ‘El Pais’ refere que “os portugueses apostam pela estabilidade e votam em Cavaco” e sublinha que “os portugueses apostaram pela continuidade em tempos de crise”. Sem esquecer os problemas informáticos que marcaram o dia eleitoral, o jornal espanhol diz que o discurso de Cavaco “exibiu um tom agressivo e longe da generosidade de quem ganha”, mostrando que “não digeriu as acusações de negócios e compras irregulares dirigidas pelos seus rivais durante a campanha”.
Para o ‘El Mundo’, “Cavaco Silva e a abstenção empatam”, enquanto o ‘ABC’ diz que o Presidente “arrasa” nas urnas.
Já o ‘Publico’, escreve que os eleitores “cumpriram um paradoxo anunciado”, depois de “votarem maioritariamente à esquerda nas legislativas de 2009, marcaram agora a sua preferência pela direita”.
RÚSSIA: PORTUGUESES OPTARAM POR NADA MUDAR           
As eleições portuguesas têm também eco na Rússia, onde a maioria dos meios de comunicação social destaca a continuidade do Presidente da República, em vez da mudança.
A agência noticiosa ITAR-TASS cita o primeiro-ministro, José Sócrates, segundo o qual “os portugueses optaram por não mudar, optaram pela continuidade e pela estabilidade política”.
O canal ORT destaca os objectivos do Presidente para os próximos cinco anos: “trata-se da luta contra o desemprego, que atingiu o nível recorde de 11 por cento, e a solução do problema da dívida externa”.
Já a rádio Eco de Moscovo não coloca de lado a possibilidade de Cavaco Silva “recorrer à sua prerrogativa de dissolver o Parlamento em sinal de protesto contra a política do Governo”.
FRANÇA: CAVACO USA ARGUMENTO DA EXPERIÊNCIA
O jornal ‘Le Figaro’ sublinha “o nível recorde de abstenção em eleições presidenciais” e escreve que Cavaco Silva “fez da sua experiência o seu principal argumento face às inquietações suscitadas pela crise financeira”.
O jornal ‘Le Monde’ explica que o Presidente da República, “figura muito respeitada em Portugal, representa uma autoridade moral importante, mas não tem poderes executivos, mesmo se dispõe do direito de dissolução do Parlamento”.
ALEMANHA: VITÓRIA DE CAVACO, DERROTA DE SÓCRATES
O económico ‘Handelsblatt’ lembra a dívida portuguesa e escreve que “no centro da campanha eleitoral esteve a aguda crise económica e financeira do país mais pobre da Europa. O jornal de Dusseldorf diz ainda que Cavaco Silva, “que costuma ser reservado, criticou de forma invulgarmente dura a política do governo minoritário do primeiro-ministro”.
O ‘Financial Times Deutschland’ escreve que a vitória de Cavaco Silva foi “um triunfo para a oposição e um revés para o primeiro-ministro”.
BÉLGICA: CAVACO REELEITO À PRIMEIRA VOLTA
A edição online do ‘Le Soir’ escreve que “o presidente português foi reeleito à primeira volta”, sem esquecer a taxa de abstenção “recorde”.
Também ‘La Libre Belgique’ escreve que Cavaco venceu numas eleições “marcadas pela forte taxa de abstenção”.

O Presidente, que disse na campanha que tinha pouco apetite para usar a ‘bomba atómica' que lhe permite demitir o Governo, um poder que pode exercer a partir do próximo dia 9 de Março, frisou ontem no discurso de vitória que será "um referencial de confiança, de estabilidade e de solidariedade, sem abdicar de nenhum dos poderes que a Constituição" lhe confere. Cavaco prometeu exercer "uma magistratura activa, cooperando lealmente com todos os órgãos de soberania para a defesa dos grandes objectivos estratégicos nacionais". Pedro Passos Coelho, líder do PSD, também sublinhou que a vitória de Cavaco nas presidenciais não foi a primeira volta de futuras legislativas.
As eleições foram marcadas por uma abstenção recorde. A bronca com o Cartão do Cidadão, que não tem número de eleitor, terá contribuído em alguma parte para este registo. Cavaco não se esqueceu do incidente e criticou o Governo, ao saudar "os cidadãos portugueses que por razões burocráticas" não conseguiram votar, e adiantou que a "qualidade da democracia também se constrói criando condições para o exercício efectivo do direito ao voto". Mas uma nota da noite foi o protesto dos eleitores, manifestado no voto em candidatos como Coelho, ou nos recordes históricos dos votos brancos e nulos. 
ALEGRE VALE MENOS COM O PS E BLOCO
Manuel Alegre foi a maior surpresa há 5 anos. À revelia dos partidos, o poeta consegui mais de um milhão de votos e passou os 20%. Agora com o apoio do Bloco e do PS não chegou a essa fasquia e ficou longe de 1 milhão de votos. Fernando Nobre ocupou o espaço deixado por Alegre e também surpreendeu com uma percentagem semelhante à registada por Mário Soares há 5 anos. O PCP voltou a apresentar um candidato, mas Francisco Lopes tem menos 160 mil votos do que os obtidos por Jerónimo em 2006.

Foi ao som de "Cavaco, Cavaco, vitória, vitória" que o reeleito Presidente da República se assumiu como vencedor, às 22h25. Acompanhado pela mulher – os filhos já se encontravam no Centro Cultural de Belém –, Cavaco não esqueceu o caos nas urnas provocado pelo cartão do cidadão e começou por saudar aqueles que tiveram "elevado sentido cívico para votar neste acto eleitoral realizado em circunstâncias de grandes dificuldades".
Na hora do aguardado discurso, não poupou críticas aos adversários, dizendo mesmo que a sua vitória constitui a "vitória da verdade sobre a calúnia". "Foram cinco contra um", disse Cavaco, acrescentando que "a honra venceu a infâmia". "Ganhei em todos os distritos de Portugal, incluindo as regiões autónomas", fez questão de sublinhar, lembrando que nestas eleições há vencedores e derrotados.
Segundo o Presidente da República reeleito, os vencidos foram os políticos "que preferiram o caminho da mentira e da calúnia": "Foi o povo que democraticamente os derrotou". Cavaco Silva definiu como prioridades o combate ao desemprego e a contenção do endividamento externo e deixou a promessa: "Cumprirei o que prometi." No fim, beijou a mulher, deu um abraço a Nunes Liberato, chefe da Casa Civil, e dois beijos à actriz Eunice Muñoz.

Enfim numa ligeira, o blog termina. Não sabe como estava as condições metrológicas neste país. Sabe apenas que numa campina e uma planície alentejana estava um frio mesmo cortante e de arrachar. Não sabeis como foi difícil chegar à mesa de voto. Acredita que se políticos não mudarem, cada vez neste país, os cidadãos cada vez entram mais na abstenção. Os seus problemas são sempre os mesmos. Eles não encontram solução por parte destes políticos da Praça de S. Bento...  
15
Nov10

ESTUDO SOBRE AS SANTAS RELÍQUIAS EM PORTUGAL

DELFOS

14 Novembro 2010


A propósito da Senhora da Peninha:


por Heitor Baptista Pato, Alagamares

É bem conhecida a lenda – narrada primeiramente por Frei Agostinho de Santa Maria no Santuário Mariano e reportada ao tempo de D. João III – do achamento da imagem da Senhora da Peninha por uma jovem pastora muda, por seus pais e por alguns vizinhos. Miraculosamente descoberta “em huma rotura da penha” nas fragosidades que sobranceiramente assinalam o poderoso promontório da Roca, logo “a tomárão com reverencia, e a trouxerão para a Ermida de São Saturnino, que fica dalli não muito longe, e nella a collocárão com toda a veneração, e reverencia (…).

Mas a Senhora que havia santificado o primeiro lugar, e o havia escolhido, para nelle ser venerada, deixando a Ermida de São Saturnino, se foy a buscar a sua penha. Tres vezes succedeo isto, e julgandose, que (…) a Senhora só aquelle lugar queria, tratárão de lhe fazer hua Ermidinha, ajustada com a probreza daquelles pobres Aldeões” (15, Tomo II, Livro I, Título XVI, p. 55). Assim se teria iniciado, em tempos de D. João III, o culto mariano na ponta terminal da serra de Sintra, nesse finis terrae do extremo ocidental da Roca já anteriormente cristianizado pela erecção no séc. XII de uma ermida dedicada a São Saturnino.

O facto de uma imagem aparecida se “recusar” a ser colocada noutro local que não o do seu achamento é muito comum neste tipo de lendas populares, estando presente em centenas de narrativas e denotando em geral a reivindicação da imagem sagrada por parte do povo, em oposição à hierarquia institucional, ou noutros casos uma história de antigas rivalidades entre povoações. Em ambas as circunstâncias reconhece-se e reivindica-se como divino o local do achamento através de manifestações que denunciam por si mesmas esse carácter sobrenatural, pois que se trata de um objecto inanimado que se apresenta portador de vontade… mesmo contra a vontade da comunidade.

Pierre Sanchis evidenciou que o santo ou a divindade manifestam frequentemente “a vontade de ser de um lugar e de uma comunidade particular, graças às circunstâncias que rodearam a aparição da sua imagem” (14, p. 45); e por isso essa imagem resiste às tentativas de trasladação, regressando repetidamente ao local que escolhera para a sua hierofania, fazendo-se por exemplo demasiadamente pesada para ser trasladada. Pouco após o povoamento da ilha Terceira dos Açores, nas primeiras décadas de 1500, a Virgem foi vista pairando sobre as águas da Ribeira das Sete (Santa Bárbara), anunciando que ali próximo apareceria uma sua imagem; ao despedir-se, deixou gravada na rocha basáltica a impressão de um pé (pezinho de Nossa Senhora). A imagem surgiria de facto numa furna na Lapinha, junto ao mar; mas quando as populações a instalaram na igreja paroquial desapareceu repetidamente até que, fazendo-se subitamente pesada, não mais a puderam deslocar do seu local preferido; e aí lhe ergueram uma ermida consagrada à Senhora da Ajuda (3A, p. 126). Também a imagem do Senhor Jesus do Carvalhal (Óbidos), que se venera num santuário edificado após o terramoto de 1755 sobre as ruínas duma primitiva ermida dedicada a São Pedro de Finis Terra e a que se organizam círios populares, fora descoberta por um pescador no mar de Peniche, a quem dissera “leva-me até poderes”; e quando chegou à ermida de São Pedro tornou-se a imagem tão pesada que não pode prosseguir. Ainda em data tão recente como 1910 se conta que ao tentarem levar para a igreja paroquial a imagem da Senhora da Boa Morte que o Rei D. José oferecera ao convento do Louriçal (Coimbra) ela se fizera tão pesada que foi necessário espicaçar violentamente os bois que a transportavam.

Noutras ocorrências são animais que descobrem a imagem ou que, transportando-a, se recusam a andar. A imagem da Senhora da Piedade que se venera na Merceana (Alenquer) foi achada no tronco de uma carvalheira por um boi chamado Marciano, que se afastava da manada e se colocava em adoração frente à árvore; aí foi construída uma ermida em 1305 (15, Tomo II, Livro I, Tít. XXVI, p. 326). Para Cernache (Coimbra) foi transportada numa mula a imagem trecentista da Senhora dos Milagres, que saíra de Lisboa a caminho de Coimbra; ao chegar àquela povoação, a mula parou, recusando-se a andar, e “por mais diligencias, que se fizerão, a não pudérão mover, a que desse mais hum passo”, conta também Frei Agostinho de Santa Maria. Em Pinheiro Grande (Chamusca) era uma junta de bois que recusava avançar e se ajoelhava; escavando-se nesse lugar, encontrou-se a imagem de Santa Maria, que ficara soterrada aquando de uma violenta cheia do Tejo no séc. XVI. No santuário barroco da Senhora d’Aires (Viana do Alentejo), cuja primeira edificação remonta ao séc. XVI, diz-se que todas as noites os bois saíam misteriosamente do estábulo para pastar, mas que na manhã seguinte estavam de novo lá dentro, apesar de a porta permanecer fechada; a Virgem manifestou-se em sonhos ao lavrador Martim Vaqueiro e explicou-lhe ser ela quem lhes abria a porta, querendo que ali lhe edificassem um templo. E também em Leiria, antes de o santuário do Senhor Jesus dos Milagres ter sido edificado, os gados das charnecas vizinhas formavam em círculo ao redor da cruz e do painel pintado erguidos em 1730 no próprio local do milagre concedido ao entrevado Manuel Francisco Maio.



Iniciativa própria e discricionária



A divindade manifesta-se com iniciativa própria e discricionária, misteriosa e incompreensível, não de acordo com as conveniências dos homens; é por essa razão superior que a “santa” foge para o local que mais lhe agrada. A história é de tal modo comum em todo o País que chega a haver quem dela se “aproveite”: uma lenda recolhida em Caféde (Castelo Branco) afirma que a capela da Senhora de Valverde fora em tempos edificada noutro local; ora, os povos de Juncal e de Freixal do Campo, querendo que uma nova ermida fosse construída mais perto das suas povoações, iam roubar a imagem e colocavam-na “na toca de uma pedra de granito, que ainda hoje se encontra atrás do altar na actual capela”, dizendo que assim indicava a Senhora o seu desejo de ali ficar… (12, p. 10).

Nalgumas situações a imagem da Senhora limita-se a desaparecer temporariamente: em tempos de D. Sancho I, pelo ano de 1185, de um naufrágio ocorrido nas praias da Vagueira (Aveiro) salvou-se uma efígie da Virgem, que se guardou num arbusto próximo; avisado o pároco da Esgueira, visitou este o local, mas não a encontrou; e foi o próprio rei que, por ela avisado através de sonhos em Viseu, ali se deslocou, descobriu a imagem e mandou edificar uma ermida e uma torre de protecção contra os piratas, embora uma outra versão da história afirme que o local da imagem teria sido revelado em sonhos a um lavrador corcunda, que construíra a primitiva igreja (5, p. 48). Menos frequentemente, a Senhora parece arrepender-se de se ter feito visível e opta por desaparecer definitivamente: conta Frei Agostinho de Santa Maria que em Matacães (Torres Vedras) aparecera pelo ano de 1500 uma sua imagem numa oliveira, desaparecendo quando a população quis levá-la para a igreja de S. Miguel de Torres Vedras; por dez vezes tentou o pároco realizar a trasladação, embora sem êxito, até que finalmente convencida a população lhe edificaram uma capela no lugar do achamento; todavia, a Senhora da Oliveira desapareceu de vez e foram assim obrigados a mandar esculpir uma outra imagem de pedra para colocarem no altar.

Muito raramente, é a própria pedra em que a Senhora se mostra que foge: em Chãos, nos Prazeres de Aljubarrota (Alcobaça), onde a Virgem das Areias apareceu a uma mulher que havia perdido as chaves de casa e receava ser abusada pelo marido, mandou pelos anos de 1630 o bispo de Leiria levar o penedo em que a Senhora se sentara para Aljubarrota, “tendo tudo por patranha, e antojo da mulher”, pois que os devotos “delle raspavaõ, e tiravão alguas areas, com as quaes bebidas saravão das febres, e de outras muytas enfermidades”; tendo o penedo regressado ao seu local próprio, “mandou-o buscar outra vez , (…) e o mandou pôr junto à sua cama aonde dormia”, mas de noite tornou a desaparecer para voltar a Chãos (15, Tomo III, Livro III, Tít. X, p. 314).

Noutras circunstâncias são os materiais de construção que desaparecem ou o conjunto já edificado que surge destruído do dia para a noite, como na lenda da Senhora da Benedita (Alcobaça), datada do séc. XIV/XV: “todas as manhãs apareciam as paredes aluídas e erguidas noutro local (onde está hoje a capela) e aumentadas sempre de mais um cunhal” (6, p. 300). Aqui chegou a Virgem a matar e a ressuscitar um boi, ou duas vacas segundo outras versões; e para dar indicação segura da sua vontade deixou mesmo “estampadas três pegadas; se bem que a incuria daquelles homens, por não fazerem caso desta maravilha, a deixaram cobrir de terra”, segundo esclarece Frei Agostinho de Santa Maria (15, Tomo II, Livro I, Tít. XVIX, p. 198). Note-se entre parêntesis que a ressurreição de bovinos tem paralelos noutros casos: também em Brotas (Mora) a Senhora ressuscitou uma vaca, depois de talhar no osso de uma das pernas do animal a sua própria imagem, que na realidade é de marfim. O modelo inspirador parece ser a lenda medieval de Santa Maria de Guadalupe (Cáceres, Espanha), em que a Virgem ressuscitou não apenas uma vaca encontrada morta pelo pastor Gil Cordero que descobrira a imagem, mas igualmente o filho do guardador de gado. Bernard d’Angers refere-se a animais ressuscitados por Santa Fé no seu santuário francês de Conques (Liber Miracolum sanctae Fidis) e escreve entre 1013-1020: “Por um maravilhoso efeito do soberano poder de Deus, santa Fé ressuscitou animais (…) Leitores, não evidenciem uma extrema surpresa na leitura deste milagre (…) Será portanto inesperado que o Criador, cuja bondade é infinita, testemunhe condescendência relativamente à obra das suas mãos, já que está escrito: Senhor, espalhareis as vossas benfeitorias sobre os homens e os animais?” (10, p. 33).

Casos há em que são relíquias a regressar ao local preferido. Na região de Belver, no concelho de Gavião (Portalegre), ainda hoje o povo conta a história das sagradas recordações que haveriam sido trazidas da Palestina pelos monges hospitalários de São João de Jerusalém, a quem D. Sancho I confiara o encargo de edificar o altaneiro castelo. As relíquias foram conservadas em 24 relicários abertos num belíssimo retábulo em talha quinhentista na capela de São Brás, no interior do recinto muralhado, oferecido pelo príncipe D. Luís, filho de D. Manuel I. Diz a lenda popular que teriam sido levadas para Lisboa, mas que logo haviam desaparecido e subido o Tejo até Belver, numa embarcação misteriosamente iluminada e acompanhada por música celestial. Não conseguindo puxar o barco até à margem, a população recorrera aos préstimos do pároco local; organizada uma procissão, viram então a embarcação deslocar-se sozinha, assim recuperando o cofre de madeira, forrado a seda vermelha e com aplicações de prata, que guardava as santas memórias. Transportadas para a igreja matriz, ali se conservam ainda hoje, sendo expostas unicamente no penúltimo domingo de Agosto.

Mencione-se ainda a lenda da fundação do mosteiro cirsterciense de Santa Maria de Alcobaça: de acordo com Frei Bernardo de Brito (2, Livro III, Cap. XXI, p. 169), D. Afonso Henriques determinara primeiramente construí-lo no lugar da Chaqueda ou Chiqueda; porém, durante a noite, desapareceram misteriosamente as “cordas e medidas, que os Monges trazião” para se abrirem os caboucos, indo aparecer no dia seguinte na zona de confluência dos rios Alcoa e Baça onde se vieram a lançar efectivamente as fundações da abadia, “armadas com tam boa ordem e concerto, como se as pusera algu official primo”; “mandando alimpar o sitio de todo genero de mato”, foi o rei o primeiro a iniciar a construção “com hua enxada nas mãos”. A lenda da fundação do mosteiro, bem como a conquista de Santarém, é minuciosamente contada por aquele historiador alcobacense na sua Crónica de Cister e está narrada nos painéis azulejares setecentistas que forram a Sala dos Reis do convento: num desses painéis descreve-se a demarcação do terreno onde D. Afonso Henriques mandou construir a abadia, repetindo na terra a medição que os anjos haviam feito no céu.

De acordo com a pia lenda, São Bernardo fora avisado em Claraval da vitória de Afonso Henriques em Santarém, em místico transe que passou em “suspiros afervoradissimos, mais do costumado, como aquelle que com os olhos do espiritu estava vedo todo o processo do combate, que se entam começava” (2, Livro III, Cap. XX, p. 166vº). Também relativamente à edificação do mosteiro de São João de Tarouca, no séc. XII, se referem circunstâncias similares: segundo Frei António Brandão (1, Livro X, Cap. IX, p. 106), o convento teria sido fundado por ordem de São Bernardo que, em “oração ferverosa”, lhe viu aparecer São João Baptista “e o moveo da parte de Deos a mandar Monges de sua casa ao Reyno de Portugal a fundar uma Abbadia, e sem limitar lugar certo, o assegurou, que o Senhor o manifestaria”; os monges de Claraval procuraram um ermitão junto a Lamego, João Cirita, e aí fundaram uma primeira ermida, que devido aos sinais do céu mudaram para a sua localização definitiva: “e fundàraõ hua Ermida, que depoys mudàraõ para o lùgar, onde hoje se vè o Mosteyro de Saõ Joaõ de Tarouca, por occasiaõ de huas luzes que por algum tempo viraõ naquelle sitio”. Frei Bernardo de Brito (2, Parte I, Livro II, Cap. III, p. 61) especifica melhor esses sinais: “hum resplandor a modo de rayo, que decendo do Ceo, se deteve no ar muy perto da terra, dando claridade a todas as serras e valles em redor”.

Saliente-se, a propósito destes episódios, o acontecido com a edificação por Constantino da nova cidade-capital de Constantinopla ou Nova Roma, entre os anos de 326 e 330 d. C. Descreve o historiador Sozomeno na sua Historia Ecclesiastica (II, 3), redigida entre 440 e 443, que o imperador iniciara a construção da nova capital aos pés de Tróia, no Helesponto, mas que Deus lhe aparecera “de noite e o mandou procurar outro sítio para a cidade. Conduzido pela mão divina, chegou a Bizâncio na Trácia (…) e aqui desejou construir a sua cidade e torná-la digna do nome de Constantino. Em obediência às ordens de Deus, alargou portanto a cidade até então chamada Bizâncio (…)”. Por seu turno, o historiador Philostorgius na Historia Ecclesiastica, que apenas nos chegou epitomizada por Photius (Livro II, Cap. 9), esclarece que “quando foi marcar o perímetro da cidade caminhou ao longo dele com uma lança na mão”; e quando “os seus servidores pensaram que já tinha medido uma área demasiadamente larga, um deles chegou-se junto dele e perguntou-lhe ‘Até onde, ó Príncipe?’. O imperador respondeu ‘Até que aquele que vai à minha frente pare’; e por esta resposta claramente manifestou que algum poder dos céus o estava conduzindo e ensinando-lhe o que fazer”.

Normalmente, a Virgem ou o santo limitam-se a evidenciar pelos seus actos o desejo de permanecer no local onde apareceram ou foram achados, vinculando-se assim a essa comunidade. Por vezes irrita-se com pormenores pouco previsíveis: o São Bento de Cossourado, em Paredes de Coura, voa milagrosamente para um carvalho vizinho sempre que a porta da capela é reconstruída (14, nota 112, p. 223). Mais raro é anunciar por escrito essa vontade, como aconteceu em Ovar: quando os vareiros encontraram a imagem da Senhora da Graça num enorme penedo, nos inícios do séc. XV, depararam aos seus pés com uma inscrição em que se ordenava a edificação de uma capela naquele lugar, prometendo em troca livrar a população de pestes.

As lendas dos sete irmãos e a geomancia
Estas tradições, repito, contribuíam para reforçar a ideia de que eram as entidades sobrenaturais quem escolhia o seu próprio território de culto, mediante uma hierofania independente da vontade dos homens e afirmando assim a sua soberania superior ou demonstração de poder primacial: ao homem não “compete escolher o terreno sacro mas tão somente descobri-lo através de sinais ou revelações superiores e aceitá-lo” (13, p. 166), reconhecê-lo e a ele se vincular através da erecção de uma estrutura de culto.

Na serra de São Macário, a capela a ele dedicada e a capela próxima de Santa Maria Madalena teriam sido destruídas por um incêndio, tendo as populações decidido erguer uma nova ermida comum aos dois santos na Cabeçada; porém, todas as noites as ferramentas desapareciam, sendo encontradas pela manhã junto à primitiva capela do santo, porque Macário não queria deixar de ver os seus seis irmãos (Senhora da Nazaré em Palhais, Santa Ana na Cumeada, Senhora dos Remédios na Sertã, Senhora da Confiança em Pedrógão Pequeno, Senhora da Graça na povoação da Graça e São Neutel em Figueiró dos Vinhos). As lendas dos “sete irmãos” (ou irmãs) parecem ter o seu protótipo longínquo nos sete irmãos macabeus martirizados com sua mãe (II Macabeus, 7:1-42): o mesmo motivo está por exemplo presente na hagiografia de Santa Felicidade, martirizada no séc. II com os seus sete filhos, ou no martírio dos sete irmãos de Gafsa (Tunísia), no séc. V. Em Portugal, quando as legiões do imperador Trajano passaram pela zona de Lamego, um dos chefes militares raptou uma jovem no castro de São Domingos, na Queimada (Armamar), cuja honra foi defendida pelos seus sete irmãos; martirizados por degolação, todos têm a sua ermida própria.

Noutros casos, a atribuição do “parentesco” refere-se apenas à proximidade geográfica de várias ermidas, avistáveis num mesmo raio visual, como no já mencionado caso da capela de São Macário e dos seus “irmãos” e “irmãs”. Também nas proximidades das Portas de Ródão, junto ao penhasco da Beira ou penhasco beirão, existe a cadeira de Nossa Senhora onde ela namorava com São Simão; conhecida sob a invocação de Nossa Senhora do Castelo, era filha de Sant’Ana e irmã das Senhoras dos Remédios (Gardete), da Piedade (Alvaiade), da Alagada (Vila Velha de Ródão), das Dores (Fratel), das Necessidades (Comenda) e do Rosário (Fratel), que “se avistam umas às outras”. Igualmente “a Senhora da Peninha tem sete irmãs, por isso quis ir para o alto do penhasco, porque aí avistava as sete irmãs que são: a Senhora da Atalaia, a Senhora da Pena, a Senhora da Penha de França [Quinta da Arriaga, nos arredores de Almoçageme], Santa Eufémia, Santa Quitéria de Meca [Guia, Cascais] e a Senhora do Cabo” (4, p. 36).

Exemplar é a história que se conta em Rendufe sobre Santo Estêvão, a Senhora da Abadia e a Senhora da Peneda, que ao subirem à serra de Arga escolheram através de uma prática geomântica o local onde cada um deveria ficar, atirando ao ar as suas bengalas. A de Santo Estêvão caiu no Labrujó, embora o santo tenha mais tarde fugido para o lugar de Lisoiros, em Paredes de Coura, onde lhe construíram uma capela (mas garantindo aos de Labrujó que lhes satisfaria todos os pedidos). A da Senhora da Abadia caiu num monte na freguesia do Bárrio, onde lhe edificaram uma capela e ainda hoje a veneram a 15 de Agosto. A da Senhora da Peneda foi cair bastante longe, junto a um enorme penedo num dos cumes mais altos de Labrujó; mas neste caso a Senhora, aparentemente insatisfeita com o sítio, voltou a atirar a bengala, acertando então no lugar em que lhe edificaram o santuário da Gavieira, em Arcos de Valdevez, onde em Setembro lhe promovem uma romaria que atrai milhares de festeiros. As gentes do Labrujó, no entanto, assinalaram o local onde a bengala caíra da primeira vez marcando o penedo com uma cruz pintada a vermelho, precisamente chamada a cruz vermelha. A lenda tem outras modalidades, baseadas na história de Santa Liberata, uma das mais conhecidas do Noroeste Peninsular. Na sua versão valenciana (17), Liberata nascera em Baiona, no ano de 119, filha do governador romano da Galiza e da Lusitânia. Num único parto, teve seis filhas (que viriam a ser as Senhoras de Mosteiró, do Faro, da Peneda, da Pena, da Bonança e dos Remédios) e um filho (São Tiago). Foi São Tiago que lançou a sua bengala ao ar para determinar o seu destino e o das irmãs: para a Senhora de Mosteiró a bengala caiu em Cerdal, para a do Faro no topo do monte em Ganfei, para a da Peneda na serra do mesmo nome, para a da Pena em Paredes de Coura, para a da Bonança em Vila Praia de Âncora e para a dos Remédios em Sanfins; para o próprio São Tiago, a bengala determinou-lhe Compostela como destino.

O mesmo mecanismo utilizou São Silvestre, segundo uma lenda medieval de Cardielos e Serraleis (Viana do Castelo): lançando o seu cajado para a margem direita do rio Lima, foi ele cair no alto do monte onde se edificou a capela, a cuja construção assistiu sentado na cadeira do santo, um penedo assim chamado por apresentar uma grande cavidade talhada naturalmente. Também quando a Senhora apareceu em 1603 à jovem muda Catarina em Sandim da Serra (Torre de Moncorvo), indicou-lhe no chão o desenho da capela que queria construída (7, p. 209). Explicitamente evocadora de práticas geomânticas é a descrição que Diogo Pereira Sotto Mayor nos faz em 1619 da fundação do convento quinhentista de São Bernardo em Portalegre, que o bispo D. Jorge de Melo quisera edificar sobre as ruínas da cidade romana de Ammaia; “mas tomando parecer com alguns físicos e matemáticos, e tomando o clima do sítio e o planeta que sobre ela reina, acharam que era lugar muito doentio e que passariam ali as religiosas muito trabalho” (11, p. 111). Do mesmo modo teria D. Gualdim Pais edificado em 1160 o castelo templário de Tomar, em substituição da velha fortificação de Ceras, sorteando a respectiva localização por três montes: segundo testemunho de Domingos Paes Roussado na inquirição de 1317 mandada fazer por D. Dinis, “lançadas sortes três vezes caíra a sorte naquele monte onde agora se vê o Castelo de Tomar e que então se acordaram que povoassem naquele monte” (9, p. 175).

Uma tradição com ilustres paralelos
A propósito das Senhoras que fogem para o local que elas próprias escolheram, Manuel Grandra salienta os paralelos com o “episódio da Eneida (II, 172-174), onde se descreve o desagrado e a ira do Paládio de Pérgamo por ter sido retirado do seu templo, ou ao que Varrão (De ling. lat., V, p. 144) refere acerca dos Penates que, quando transportados para Lavínia, voltaram para o seu domicílio original” (8, p. 19).

Na verdade, a estátua de madeira de Pallas Atena (Palladion) manifestou com “prodígios não duvidosos” a sua aversão quando Ulisses e Diomedes a retiraram do seu templo em Tróia, tendo mais tarde, segundo uma de várias tradições, sido levada por Eneias para Roma: diz Vergílio na Eneida que dos olhos despediram-se chispas de fogo, dos membros escorreu suor salgado e por três vezes se levantou sózinha do chão, “brandindo a lança e agitando o hórrido escudo”. Também os Penates que haviam sido trasladados de Tróia para a cidade de Lavinium por Eneias recusaram mudar-se para Alba Longa quando esta cidade foi por sua vez fundada pelo filho de Eneias, Ascânio, e reapareceram miraculosamente em Lavinium por duas vezes; segundo Dionísio de Halicarnasso (Antiguidades Romanas, II, 67), apesar de as portas do templo de Alba Longa estarem “muito cuidadosamente fechadas e de as paredes do recinto e o tecto do templo não terem sofrido estragos, as estátuas mudaram as suas posições e foram encontradas nos antigos pedestais” em Lavinium. O acordo prévio da deusa era igualmente essencial relativamente a Cibele: em Roma, aquando do cortejo processional do seu banho (lavatio), que se realizava a 27 de Março, a sua imagem de prata com uma pedra negra a servir de rosto deixava o Palatino em direcção ao Almo, um afluente do Tibre, no qual era mergulhada e lavada com cinza; antes de regressar a Roma, porém, era-lhe pedido o seu consentimento, e só em caso de resposta afirmativa assim se procedia.

Ainda mais explícito é o relatado na Historia Britonum (Cap. LXXIII), redigida circa 830, tradicionalmente atribuída ao monge galês Ennius e que forneceu um contributo fundamental para a formação das lendas relativas ao rei Artur, sendo o primeiro texto que o apresenta como figura histórica: no País de Gales, no cairn de Cabal, podia ver-se a impressão das patas de Cabal, um dos cães da matilha de Artur de Camelot; inúmeros visitantes tentaram levar a pedra, mas só conseguiam conservá-la durante um dia e uma noite, já que que na manhã seguinte ela regressava inevitavelmente ao seu lugar. Por seu turno, Plínio conta na História Natural (XXXVI, 23) que na cidade de Cyzicus havia uma “pedra fugitiva” (lapis fugitivus) que fora usada pelos Argonautas como âncora, mas porque “repetidamente levantara voo do Prytanaeum, o local assim chamado onde era guardada, foi presa à terra com chumbo”; noutro local (id., 29) afirma: “entre os prodígios que aconteceram, encontro referências feitas a mós de moinho que se moveram por si próprias”.

Saliente-se, por último, que a circunstância de santas imagens terem sido escondidas – e mais tarde achadas – anda normalmente atribuída ao domínio muçulmano da Península, que terá levado a que os cristãos as guardassem em locais isolados para evitarem a sua profanação, especialmente durante as perseguições do omíada Abderramão II no séc. IX e, mais tarde, das dinastias almorávida e almóada. A mesma determinação haveria sido já tomada anteriormente, aquando da invasão dos alanos, suevos e outros povos bárbaros, nos inícios do séc. V, afirmando a tradição que o arcebispo de Braga mandara esconder todas as relíquias de santos por ocasião do mítico concílio celebrado naquela cidade em 411. O I Concílio de Braga decorreu de facto entre 561 e 563, presidido por São Martinho de Dume, bispo de Braga; o falso I Concílio, convocado por um inexistente arcebispo Pancraciano e cujas actas foram forjadas no mosteiro de Alcobaça e publicadas por Frei Bernardo de Brito na sua Monarquia Lusitana (3, II Parte, Livro VI, Cap. II, p. 198), referia nomeadamente as relíquias de S. Pedro de Rates, que era necessário acautelar dado que “as gentes barbaras destruem toda Espanha, assolaõ os Templos, e poem à espada os servos de Jesu Christo, profanão as memorias dos Santos, seus ossos, Templos, e sepulturas”. Teria sido decidido que os bispos regressassem aos seus domínios e que aí escondessem “os corpos dos Santos em lugares decentes, e mandenos hua relação dos luygares e covas onde os depositarem, porque senão venhaõ a esquecer pelo discurso do tempo”.

Contestando de algum modo esta explicação tradicional para o aparecimento de santas imagens, outros investigadores preferem recordar que eram na Idade Média numerosos os eremitas que se retiravam para longe do mundo e que, para se sustentarem, apresentavam aos passantes uma imagem, pedindo-lhes o óbolo; com a sua morte, as imagens teriam ficado ali esquecidas para virem mais tarde a ser encontradas pelos populares
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